Colômbia — Gana: um jogo desenhado para ser sonolento

Há confrontos que a gente sente, antes mesmo do apito, que vão andar de vagar. Colômbia contra Gana, nas 16 avos de final da Copa, tem essa cara: um duelo de controle contra resistência, e não de festival de gols.
O mercado até que fez a leitura correta ao coroar a Colômbia como favorita clara. Só que a graça não está em adivinhar o vencedor — está em contar quantos gols um bloco baixo de Carlos Queiroz costuma permitir.
O manual de Queiroz é o tédio calculado
A identidade de Gana neste Mundial não deixa margem para dúvida. Queiroz montou um time para comprimir o meio, defender a área e contra-atacar na hora exata — nada de jogo aberto.
Os números da fase de grupos gritam isso: 0 a 0 contra a Inglaterra, 1 a 0 suado sobre o Panamá com gol no minuto 94, e até a derrota para a Croácia veio por dois lances de bola parada, não por falta de organização.
Some a isso um detalhe nada trivial: Gana chega sem Mohammed Kudus, seu criador mais inventivo, cortado por lesão. Sem ele, o time perde exatamente a faísca que abriria uma defesa fechada — restam os contra-ataques de Semenyo e companhia, que dependem de espaço para respirar.
A Colômbia domina, mas economiza no gol
Do outro lado, a Colômbia é o retrato do time que manda no jogo e converte território em gol com parcimônia. Contra a RD Congo, precisou esperar até os 76 minutos para furar o bloqueio.
Diante de Portugal, dominou a bola e amargou um 0 a 0 frustrante — o técnico Lorenzo disse que foram buscar "por todos lados", mas a rede não balançou. É um elenco cheio de talento com James, Luis Díaz e Arias, e ainda assim de gols contados.
Quando um favorito que faz um gol por partida encontra um adversário desenhado para conceder o mínimo, o roteiro clássico é o placar enxuto. E a dúvida no centroavante — Córdoba ou Suárez — só reforça a sensação de que a finalização segue sendo o ponto de interrogação.
Há ainda o fator climático: Kansas City sob calor sufocante e úmido no dia da partida. Esse tipo de condição premia quem se sente à vontade sentado atrás, administrando o ritmo — e castiga quem insiste em perseguir a bola por noventa minutos.
Confesso que a bola do empate flertou comigo — afinal, Gana segurou a Inglaterra. Mas uma Colômbia com força máxima costuma achar o gol que decide, então apostar no total, e não no resultado, evita justamente esse risco. E pedir para os cafeteros vencerem por dois de vantagem seria pagar caro pelo otimismo.






















