Alemanha — Costa do Marfim: por que o 7 a 1 é uma miragem
O mercado olhou para o placar e ficou hipnotizado. Alemanha 7 a 1 sobre Curaçao fica bonito na memória, mas é exatamente o tipo de lembrança que atrapalha na hora de ler o próximo capítulo.
Porque o adversário, desta vez, não combina com avalanches de gols. A Costa do Marfim chega como uma das equipes mais sólidas defensivamente do torneio. E a escalação confirmada deixa a intenção escancarada.
Uma muralha montada para sufocar
O trio de volantes — Sangaré, Kessié e Oulaï — foi escalado para estrangular as combinações pelo meio. Na frente da dupla de zaga Kossounou e Agbadou, é um time pensado para defender fundo e contra-atacar.
Os números não mentem sobre o caráter dos Elefantes. Eles passaram pelas eliminatórias sem sofrer gol — a imprensa alemã chamou a defesa marfinense de "Prunkstück", a joia da coroa.
E não para por aí. Bateram a França e a Escócia, seguraram o Equador com a rede intacta mesmo finalizando menos, e venceram no detalhe, gerenciando o placar em vez de correr atrás dele. Amad e Diomandé estão ali para punir no contragolpe, não para abrir o jogo.
A Alemanha também desconfia
O detalhe revelador é que o time de Nagelsmann não chega convencido de outra festa de gols. Os relatos dos treinos fechados apontam para uma estrutura mais cautelosa.
Sané caindo numa linha mais recuada para conter a velocidade pela direita, Kimmich entrando no meio com a bola, esboços de linha de cinco sem a posse. Esse é o figurino de quem teme o contra-ataque — não de quem espera quatro gols.
A criatividade de Wirtz e Musiala segue letal, claro, e a Alemanha deve dominar a posse. Mas dominar territorialmente não é o mesmo que transformar isso em goleada contra um bloco athlético e disciplinado.
Some-se a isso o gramado de Toronto, com previsão de pancadas de chuva por perto: piso mais escorregadio e ritmo entrecortado raramente ajudam quem precisa de muitos gols.
Tudo aponta para um jogo controlado, daqueles de 2 a 0, 1 a 0 ou 2 a 1. A linha pende para o Mais por preguiça de revisitar a memória recente — e essa preguiça é justamente onde está o valor. Considerei o Costa do Marfim com vantagem, mas a recompensa era magra demais para a convicção.














