Holanda — Japão: a estreia que promete poucos gols
Toda Copa do Mundo começa com um certo nervosismo coletivo, e a estreia do Grupo F em Arlington tem cara de jogo de xadrez disfarçado de futebol. A Holanda é a favorita no papel — e ninguém discute isso —, mas o roteiro dessa partida tende a ter bem menos gols do que a fama dos dois lados sugere.
A Laranja cria, mas não converte
O problema da seleção de Koeman não é gerar chances; é transformá-las em gol com a bola rolando. A preparação foi reveladora nesse sentido: derrota para a Argélia sem marcar na bola rolando, e contra o Uzbequistão a vitória só veio com dois pênaltis de Gakpo, o segundo já nos acréscimos depois de a equipe levar o empate no fim.
O próprio técnico reclamou publicamente da falta de eficiência ofensiva. Some-se a isso o detalhe que se repete: a Holanda perde controle do jogo depois das substituições, como se ligasse o piloto automático na reta final. A base defensiva continua de altíssimo nível — Van Dijk, De Jong, Gakpo, Malen, Dumfries —, mas o gol de jogada virou artigo de luxo por ali.
Japão mais cauteloso sem Endo
Do outro lado, o Japão chega com credibilidade real — venceu Inglaterra e Escócia fora de casa e protagonizou aquela virada épica sobre o Brasil. Mas esta versão não é o Japão no auge. As ausências de Mitoma e Minamino tiram o veneno do lado esquerdo, e a baixa de Wataru Endo, o capitão e dono do meio-campo, é a mais estrutural de todas.
Sem Endo para blindar a defesa em três, Moriyasu deve apostar num bloco compacto no 3-4-2-1, minimizando o risco no setor central e confiando em saídas rápidas com Kubo, Ueda e companhia. Ou seja: nada de troca aberta de golpes. O Japão vai querer fechar os espaços e punir no contra-ataque, não disputar um festival de chutes a gol.
O peso da estreia
Tem ainda o componente psicológico. Jogo de abertura de grupo, com Suécia e Tunísia à espreita, tem custo do erro elevadíssimo. Ambas as seleções têm mais medo de tomar gol do que pressa de se expor. Para o Japão, um empate na estreia está longe de ser um mau negócio; para a Holanda, evitar a vexame importa mais do que golear.
Junte a aridez ofensiva holandesa, o bloco fechado japonês e o nervosismo natural de uma estreia, e o que se desenha é um duelo viscoso, tático, de poucas oportunidades claras. Duas ou três bolas na rede parecem improváveis num cenário assim. A linha, a meu ver, superestima ligeiramente o que essa partida vai produzir no placar.








