Bélgica — Egito: As pirâmides táticas contra o toque de bola estéril
Alguém nos escritórios das casas de apostas olhou para a prancheta, viu nomes brilhantes como Kevin De Bruyne de um lado e Mohamed Salah do outro, e imediatamente decidiu que teremos um espetáculo ofensivo fervendo nesta abertura do Grupo G. É uma ilusão quase poética. A realidade do gramado em Seattle desenha um roteiro bem mais pragmático e engessado. Esperar chuvas de gols num cenário onde a tática grita por cautela é o clássico erro de quem só lê os nomes famosos nas camisas e ignora solenemente como as equipes vêm se comportando, montando as odds quase como um convite à caridade.
O carrossel europeu sem o seu tanque de guerra
O grande fantasma para os belgas logo nesta estreia é a condição física de Romelu Lukaku, que começará esquentando o banco de reservas. Sem o seu camisa nove para empurrar o paredão defensivo e servir de referência bruta na grande área, a seleção europeia vira um time de toques curtos e muita ciscação inofensiva. Doku vai atormentar os laterais, De Bruyne vai tentar achar o buraco da agulha, mas quem vai ganhar no corpo contra os zagueiros? Quando a criação fica só no chuveirinho ou no toque pro lado, como vimos no sofrível 0 a 0 contra a Macedônia do Norte no ano passado, o ataque empaca.
Para piorar o ímpeto ofensivo, a defesa belga não vive dias de glória. A ausência de Zeno Debast força uma dupla de zaga remendada com Ngoy e Theate, o que não inspira confiança para jogar com a linha na intermediária africana. O pânico de levar uma bola nas costas nos contra-ataques vai obrigar Castagne e a defesa inteira a segurarem a empolgação. O domínio da posse de bola até vai existir, mas tende a ser um monólogo lento, modorrento e sem sustos para os goleiros.
Um monumento sólido erguido na grande área
Se a Bélgica vai sofrer para mastigar a posse, o Egito entra em campo com a nobre e antiquada missão de trancar a porta. O técnico Hossam Hassan tem o pragmatismo correndo nas veias e armou um meio-campo superpovoado. O plano é claríssimo: montar linhas indestrutíveis no 4-3-3, colocar Marwan Attia e Hamdy Fathy para suarem sangue e congestionar cada centímetro perto da área. É a essência do futebol reativo, pronta para aborrecer o torcedor que esperava show.
A ironia cômica dessa partida, que muitos apostadores deixaram passar debatem batido, é que a seleção egípcia viajou sem Mostafa Mohamed, o centroavante de ofício. Sem ele, a ideia de fazer um ataque posicional coerente evapora no calor da tarde americana. Eles sabem que não têm como propor jogo na frente. Portanto, vão entregar a bola para a Bélgica, encostar os zagueiros quase no alambrado e rezar para que Salah ou Marmoush consigam um milagre em alta velocidade. Foi com esse mesmo sofrimento voluntário que amarraram um zero a zero com a Espanha há poucos meses.
O abismo entre os nomes e a realidade
Mesclando as duas realidades, o que se projeta não é um tiroteio, mas uma guerra de paciência e desgaste. Goleadas anteriores dos belgas contra times inexpressivos iludem o mercado, que precifica o placar elástico enquanto as escalações berram por um jogo travado no meio-campo. Quando um dos lados abandona qualquer pretensão de propor a partida e o principal favorito entra mutilado do seu maior definidor físico, apostar numa partida carente de bolas na rede se torna a única saída moral e tática.








