Canadá e Bósnia trocam espetáculo por retranca na abertura
Achar que a estreia do Grupo B vai ser um belo espetáculo ofensivo é ter muita fé na magia do futebol. As casas de apostas olham para o fator casa do Canadá em Toronto e imaginam um massacre, mas convenientemente esqueceram de checar o boletim médico. A verdade inconveniente é que a linha baseia-se na empolgação das arquibancadas e ignora completamente que ambas as seleções vêm apresentando uma alergia severa na hora de fazer gols.
O hospital canadense e o ataque inoperante
O Canadá entra em campo sofrendo um golpe duríssimo: perdeu justamente Alphonso Davies para esta primeira rodada. Estamos falando do único jogador no elenco que tem um motorzinho capaz de quebrar linhas, puxar pontes em transição e transformar a simples posse de bola em verdadeiro terror para os zagueiros adversários. Sem sua explosão pelo corredor esquerdo, a equipe comandada por Jesse Marsch fica assustadoramente estéril na hora de furar bloqueios profundos.
Se você acompanhou o tédio tático nos amistosos recentes contra Irlanda e Tunísia, viu uma equipe arrastando a bola sem imaginação, batendo cabeça na intermediária sem saber o que fazer no último terço. Para piorar o humor da torcida, a dupla de frente, Jonathan David e Cyle Larin, vem arrastando um jejum preocupante com a camisa da seleção. A pressão de jogar a primeira Copa do Mundo em casa vai bater no teto, mas a falta de repertório criativo só aumenta o drama e a dificuldade de furar defesas retrancadas.
O ônibus balcânico oficialmente estacionado
Do outro lado do gramado, a Bósnia e Herzegovina não faz a menor questão de agradar os olhos de quem gosta de futebol bem jogado. O técnico Sergej Barbarez já soltou o verbo na imprensa local, avisando abertamente que a equipe joga por resultado, sem a menor vocação para dar espetáculo. É o famoso ato de estacionar o ônibus sem nenhum peso na consciência. Foi operando nesse exato modo de resistência, suor e sofrimento puro que eles eliminaram o País de Gales e a Itália nos playoffs: fechando a casinha e amarrando os minutos até enlouquecer o rival.
No setor ofensivo, o cenário bósnio também é de dar dó. O veterano craque Edin Džeko até pode tentar ir para o sacrifício, mas chega com o tanque na reserva, sendo poupado em treinos após lidar com dores. E com Haris Tabaković também no estaleiro, o time fica sem profundidade alguma em seu comitê de ataque. Sem pernas para propor um jogo de velocidade, a Bósnia vai se encolher, distribuir chutões e cavar faltas.
A expectativa de um placar elástico esbarra no muro da realidade pragmática. O Canadá carece do seu solucionador de problemas, e a Bósnia sente calafrios só de pensar em abrir mão de sua defesa sólida. Será um duelo travado, de pura transpiração e pouquíssima inspiração.








