Arábia Saudita — Uruguai: o mercado comprou a camisa celeste
É fascinante observar como o mercado de apostas às vezes age como um torcedor apaixonado e cego. As linhas para este confronto tratam o Uruguai como um rolo compressor prestes a passar por cima da Arábia Saudita sem a menor piedade. A precificação atual vende exclusivamente o peso da camisa celeste e a grife tática de Marcelo Bielsa. É como se os bookmakers estivessem nos oferecendo um esportivo de luxo, mas fingindo que ninguém roubou o motor e os freios na noite anterior.
O hospital celeste e a seca de ideias
Para começar a desmascarar esse favoritismo exagerado, basta olhar para o departamento médico. A defesa uruguaia está em frangalhos. Ronald Araújo está fora por lesão na panturrilha e José María Giménez é uma dor de cabeça imensa. Tentar sustentar a famosa e arriscada linha alta do sistema de Bielsa sem seus principais zagueiros de recuperação é um verdadeiro convite ao desastre.
Mas o absurdo da cotação não para na defesa. No setor ofensivo, a ausência de Arrascaeta tira todo o cérebro da equipe. Sem as quebras de linha do meia, o Uruguai vira um time intenso, porém previsível e estéril. Os amistosos recentes servem de alerta: a equipe suou para não sair de um modorrento zero a zero contra a Argélia e tomou um atropelo histórico de cinco a um dos Estados Unidos. Eles vêm demonstrando uma dificuldade crônica para criar jogadas claras quando encontram uma zaga agrupada na frente da área.
O caldeirão de Miami e a paciência saudita
Outro detalhe hilário ignorado pela linha das bancas é a meteorologia. O jogo vai acontecer em Miami, sob um calor e uma umidade de fritar os miolos. A grande proposta do Uruguai é fazer um perde-pressiona asfixiante durante a partida toda. Tentar executar esse plano kamikaze debaixo desse clima abafado é pedir para o time precisar de balões de oxigênio antes mesmo de ir para o vestiário.
Enquanto os sul-americanos vão estar derretendo no gramado, quem vai se sentir em casa? A Arábia Saudita. Acostumados com fornos climáticos, os comandados de Donis vêm mostrando que sabem amarrar bem um jogo. No recente teste contra o forte time de Senegal, a Arábia entregou um belo zero a zero, dando uma aula de como montar uma retranca organizada sem entrar em pânico. Com nomes cascudos como o goleiro Al-Owais segurando as pontas lá atrás, eles vêm para cozinhar o duelo.
Por que fugir do óbvio?
Eu até cheguei a pensar no mercado de menos gols, já que o ataque uruguaio anda muito tímido. Porém, apostar cego nesse cenário é um risco imenso. Essa defesa uruguaia totalmente improvisada tem plenas condições de dar um de seus famosos apagões e entregar um corredor gigantesco para um contra-ataque de Salem Al-Dawsari e Firas Al-Buraikan. Um gol saudita nas presas, e a sua aposta em gols baixos vira cinzas num instante.
Exigir que esse Uruguai modorrento, desmontado na zaga e sem inspiração no meio-campo vença por dois ou mais gols de diferença beira a comédia pura. Valverde e Darwin Núñez vão ter que suar muito a camisa só para, talvez, espremer uma vitória pelo placar mínimo no talento individual. A gordura asiática oferecida para os sauditas é o verdadeiro presente desse mercado bizarro.







