Argentina — Suíça: O calor e o cansaço vão derreter o ferrolho

O mercado de apostas adora romantizar um ferrolho bem montado. Ao olhar para as linhas oferecidas, parece que a seleção da Suíça virou subitamente uma fortaleza impenetrável nestas quartas de final. Tratam o empate suado contra a Colômbia como uma obra de arte tática inquebrável.
A realidade, porém, é bem menos poética e muito mais cruel para o lado europeu da chave. A equipe precisou cuspir o pulmão num gramado durante longos cento e vinte minutos de puro desgaste mental e físico. Agora, Murat Yakin e seus comandados atravessam o país para jogar sem pernas.
Viagem de ida para o micro-ondas
A partida acontece na umidade sufocante de Kansas City e promete punir severamente os cansados. Enquanto a Argentina já está perfeitamente aclimatada e se sentindo em casa com a torcida, os suíços desembarcam direto da costa oeste. Tente correr atrás da bola no calor pesado com pernas de chumbo e veja a mágica desaparecer.
A comissão técnica de Lionel Scaloni sabe muito bem que só precisa manter a posse de bola trocando passes no meio-campo. Fazer o adversário encurtar espaços sob um calor escaldante é uma tática de tortura lenta e totalmente legalizada. Uma hora o oxigênio simplesmente falta e o ritmo fatalmente desaba na reta final.
O caos europeu que não joga
Se a temperatura elevada já não fosse um castigo suficiente para o físico suíço, o time ainda entra em campo sem Johan Manzambi. A ausência já foi duramente confirmada pelo departamento médico e muda totalmente a balança do jogo. Ele era, disparado, a única peça de transição ofensiva de impor qualquer respeito concreto.
Sem as arrancadas diretas do meia para quebrar linhas e causar desespero, o contra-ataque vira uma piada inofensiva. Isso soa como música clássica para os ouvidos do sistema defensivo argentino, que de fato andou parecendo uma porta de shopping giratória no jogo contra o Egito. Acabou o terror nas costas da zaga sul-americana.
Cristian Romero e Lisandro Martínez provavelmente terão de longe a noite mais sossegada desta fase de mata-mata. Sem o fantasma de serem pegos de calças curtas num contra-ataque rápido, os zagueiros ganham aval para empurrar o time. O meio-campo campeão do mundo fica liberado para martelar a retranca de forma brutalmente agressiva.
Cuidado com a armadilha do placar curto
A multidão certamente olhou babando para o mercado de poucos gols, já enxergando uma epopeia defensiva de placar magro. Fugir dessa armadilha de principiante é fundamental para não acabar o dia xingando a tela da televisão. O ferrolho suíço até ostenta valor no início, mas esconde um belo buraco em sua estrutura no calor.
Quando a imensa exaustão muscular cobrar a tarifa por volta dos trinta minutos do segundo tempo, o paredão tende a apresentar rachaduras grotescas. Se os zagueiros abrirem o bico, Lionel Messi e Julián Álvarez possuem bola de sobra para transformar os minutos derradeiros num verdadeiro treino interativo de finalizações rápidas.
Portanto, inventar histórias complexas e buscar sarna para se coçar com mercados alternativos é quase perigoso aqui. O cenário está armadinho para um monólogo de posse sul-americano contra um esquadrão esgotado e totalmente inofensivo pelos flancos de transição. Assinar a vitória limpa dos atuais campeões é o melhor negócio em campo.
















